Companhia Nacional de Música

O Disco que nos embala

“As crianças precisam de ser embaladas, mas os adultos também”. As palavras são do músico e compositor (e produtor e editor...) Nuno Rodrigues e baseiam-se naquilo que é a sua própria experiência. Há dez anos, tinha editado um disco com Canções destinadas ao público infantil intitulado “Canções de Embalar” que se tornou num autêntico “fenómeno de mercado”, embora sem andar pelos tops: esgota regularmente, regularmente tem de ser reeditado. É assim desde há dez anos... e, provavelmente, assim continuará a ser. Afinal de contas (e, apesar de, feitas, não apresentarem resultados muito agradáveis), nascem Crianças todos os dias.

Sucede, porém, que, tal como verificou o próprio Nuno Rodrigues, não são apenas as Crianças a “devorar” as Canções do disco: os adultos também se deixam embalar, usando-as mesmo como “arma” contra o stress do dia a dia – em especial quando se trata de enfrentar o trânsito citadino. Primeira conclusão: um disco com Canções para Crianças não é necessária e exclusivamente um disco com Canções para Crianças; segunda: quando Canções para Crianças são boas Canções para as Crianças é porque as Canções são Boas Canções. Era do que se tratava quando se tratava das canções que o Nuno Rodrigues tinha escrito há dez anos.

É do que se trata agora, quando se trata de novas Canções da autoria do Nuno Rodrigues escritas para as Crianças. São boas Canções para Crianças, portanto são Canções que são Boas Canções. Ponto final – novo parágrafo e vamos a elas.

São onze as Canções. Todas com músicas do Nuno Rodrigues, seis também com letras dele, as outras cinco com letras de Miguel Cardoso (três) e de Marta Elias (duas). Encontram-se reunidas num CD graficamente muito atraente em cuja capa está impresso “Nuno Rodrigues apresenta Canções de Embalar de Dia”. Finalmente, o nome dele, do Nuno Rodrigues, impresso na capa de um disco, ele que já escreveu mais de 400 Canções e participou em mais de uma centena de discos como Músico, como Compositor, como Produtor, até como Editor (que é aquilo que ele tem sido nos últimos anos, dirigindo a Companhia Nacional de Música, actividade, suspeito, intensíssima. Por causa dela, o Nuno, nos últimos dez anos, para além das primeiras “Canções de Embalar”, assinou três ou quatro originais, um deles para a Ana Moura – o primeiro Fado gravado pela Ana Moura, diga-se de passagem e já agora que vem a propósito...). De maneira que – de maneira que aquilo que me apetece escrever – e posso fazê-lo, já tenho idade e estatuto para poder escrever (e dizer) tudo o que me apetece exactamente como os malucos! – é que já estava com uma saudade do caraças do Nuno Rodrigues!

Nós – eu e o Nuno Rodrigues – gostamos de dizer um ao outro que já nos conhecemos há, pelo menos, três anos e meio. E é mesmo verdade e, sendo verdade, impede-nos de enfrentar a realidade: a de que, não tarda nada, estamos a assinalar 40 anos de conhecimento mútuo. Para mim, o Nuno Rodrigues é um dos Grandes Compositores Portugueses da Geração de 70 e 80. Com a Banda do Casaco, por exemplo, fez aquilo que ninguém tinha feito – e que ninguém voltou a fazer. Como muito poucos outros, o Nuno Rodrigues pode gabar-se de ter deixado na Música Portuguesa uma marca tão distintiva que bem posso afirmar, sem receio de desmentido, que, depois das Canções que compôs (com o António Avelar de Pinho) para a Banda do Casaco, “nada voltou a ser como antes”. Não hesito em afirmar também que cantoras como a extraordinária Né Ladeiras ou a surpreendente e inultrapassável Gabriela Schaff nunca cantaram tão bem como quando cantaram Canções do Nuno. E que – surpresa das surpresas? – Cândida Brancaflor teria sido outra se tivesse cantado apenas e só Nuno Rodrigues.

De maneira que – já lhe sentia a falta, a falta do Nuno compositor, a falta das Músicas do Nuno, da elegância, do bom gosto, mas também do arrojo do Nuno. E, porque não dizê-lo: até do atrevimento e da impertinência do Nuno, este Nuno Rodrigues que é um modelo de boa educação e de decência? Pois essa falta está quase inteiramente superada graças a estas novas Canções, “Canções de Embalar de Dia”, cujas Músicas são todas dele, do Nuno que, além do Compositor que é, é também um “gajo porreiro”.

Tão bom Compositor e gajo tão porreiro que, acredito, não lhe foi difícil reunir o conjunto de Cantores e de Músicos cujos nomes se encontram igualmente impressos na capa do CD e que podem ser ouvidos, cantando e tocando com um gozo enorme e manifesto nestas onze Canções. Desde logo, José Peixoto, responsável pelos arranjos e pela produção.

O José Peixoto não sabe – nem, provavelmente, lhe interessa para nada – mas é um dos Músicos Portugueses que eu mais respeito e por quem tenho mais admiração. Estou certo de que não tem tido o reconhecimento (ou, pelo menos, a notoriedade) que merece (e nessa injustiça também devo ter a minha boa dose de culpa), ele que tem sido um Músico de uma Coerência à prova de bala o que não o impede de fazer o que faz como ninguém mais faz, sendo que tudo o que faz é – como dizer? – bonito. Este disco de Canções do Nuno Rodrigues é um Disco Bonito. E é um Disco Bonito muito por culpa do José Peixoto.

Mas é também um Disco Bonito, porque é superior e ternurentamente cantado. Não admira: é um disco cantado por Teresa Salgueiro, por Rui Veloso, por Luís Represas, por Mafalda Veiga, por Filipa Pais, por Dany Silva, por Luanda Cozetti (que me pôs uma das alcunhas de que mais me orgulho, “Loucomotor”!); e superior e ternurentamente tocado por Ana Isabel Dias, Norton Daiello, Guto Lucena, Filipe Dias, Ruca Rebordão, António Jorge Nogueira, Sandra Raposo e Ângela Carneiro – o tal conjunto de Cantores e Músicos reunidos pelo Nuno Rodrigues numa “equipa” daquelas que o Nuno foi sabendo motivar ao longo de um percurso profissional que, está na altura!, tem de, obrigatoriamente, sofrer um novo e fulgurante impulso.

Omiti um nome? Omiti, sim senhor! O de Teresa Macedo. Antes de a ouvir cantar em três Canções deste Disco, nem sabia da existência dela (erro meu, culpa minha...). Disse-me o Nuno que não foi descoberta dele, mas do José Peixoto. Pela minha parte, ofereço-me para Tio. Asseguro-lhe, Teresa, com toda a presunção que me caracteriza, que muito dificilmente encontrará na Rádio Portuguesa um Tio António como eu! E, apesar disso, quem fica a ganhar sou eu: por mais discos que eu ouça, não encontro nenhuma Sobrinha a cantar como Você! E isso também fico a dever ao meu Amigo Nuno Rodrigues!

António Macedo

Lisboa, Julho/2011

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